Seis anos após a Prefeitura de Campo Grande oficializar a criação da Área de Recreação e Lazer Dudu – Luiz Eduardo Martins Gonçalves, a praça que deveria preservar a memória do menino assassinado brutalmente aos 10 anos permanece sem qualquer identificação e tomada pelo abandono. O totem que normalmente identifica o nome da praça nunca foi instalado.
Ao chegar do mercado ao bar que mantém na esquina da praça, no Jardim das Hortênsias, na região do Aero Rancho, a salgadeira e comerciante Eliane Aparecida Martins, de 52 anos, mostra uma cópia plastificada da edição do Diogrande (Diário Oficial) publicada em novembro de 2020, que oficializou a homenagem ao filho. O documento ficou por anos exposto na parede do estabelecimento, na esperança de que um dia fosse substituído pela placa prometida.
“Não tem nem o murinho com o nome do neném”, afirma Eliane. “Eu guardo esse papel desde quando saiu. Queria ver o murinho com o nome dele. Nem inauguração simbólica teve. Na época, o presidente do bairro tentou correr atrás para a gente, mas não deu certo. Acho que nem esse murinho vai sair”, lamenta, chamando o filho pelo apelido carinhoso de “neném”.
A área de lazer fica no quadrilátero formado pela Avenida Arquiteto Vilanova Artigas e pelas ruas Prímula, Gérbera e Caládio, no Jardim das Hortênsias I. Apesar da homenagem oficial, quem passa pelo local não encontra qualquer referência a Dudu. A praça também acumula sinais de abandono. O prédio da associação de moradores está fechado e deteriorado, com janelas quebradas. A academia ao ar livre tem nove aparelhos, a maioria sem manutenção, e do parquinho infantil restou apenas um escorregador. Ao lado, pneus cercam um campo de futebol de terra.
Eliane conta que sempre morou entre os bairros Jardim das Hortênsias e Aero Rancho. Após o assassinato do filho, chegou a deixar a região por um período, mas acabou voltando. Ainda hoje, diz sofrer ao lembrar do crime e, principalmente, ao encontrar pessoas que tiveram envolvimento no caso. “O sentimento é horrível. Esses dias eu estava sentada ali e chegou um rapaz que teve envolvimento na época para pedir um cigarro. Levantei e saí. Passei mal”, relata. Ela afirma que sonhava em ver a área bem cuidada, frequentada pelas famílias e com o nome do filho preservado. “Queria a praça arrumadinha, com o nome dele e banquinhos para as pessoas sentarem. Era um espaço para o pessoal se reunir”, diz.
Moradora do bairro há 30 anos, a agente operacional Márcia Veríssimo, de 52 anos, lembra que o espaço já viveu dias melhores. “Nós fomos umas das primeiras moradoras daqui. Antes tinha curso na associação, havia mais brinquedos no parquinho e vinham crianças de outros bairros brincar. Hoje está tudo abandonado.” Ela mostra à reportagem que uma das três esculturas de araras que ornamentavam a praça está caída e quebrada. Os balanços desapareceram e sobraram poucos equipamentos de lazer.
O militar da reserva Atanázio Lopes Santa Cruz, de 73 anos, mora no bairro há quatro anos e diz que desconhecia a história da homenagem. Mesmo assim, acredita que a praça poderia ser mais bem aproveitada. “O espaço tem potencial. Ano passado ainda teve barracas aqui, acho que por causa de algum evento. É um espaço bom, mas precisa de cuidado.” Aguardando ônibus em uma das ruas principais do bairro, a aposentada Marcilene Vieira da Silva, de 72 anos, vive na região há mais de 30 anos e conheceu Dudu. Ela admite que nem sabia o nome oficial da praça. “Fico arrepiada só de lembrar dessa história”, disse.
Caso – Dudu desapareceu em 22 de dezembro de 2007, aos 10 anos. As investigações apontaram que ele foi espancado até a morte por adultos e adolescentes conhecidos da família. Após o homicídio, o corpo foi enterrado em um terreno baldio e, dias depois, desenterrado, esquartejado e enterrado novamente pelos autores. O ex-padrasto da vítima, José Aparecido Bispo da Silva, conhecido como Cido, foi condenado a 26 anos de prisão. Segundo a investigação, ele matou o menino para se vingar da ex-companheira. Holly Lee recebeu pena de 24 anos e 10 meses pelo homicídio. Os dois já cumpriram as penas, passaram pelo regime semiaberto e hoje estão em liberdade. Os demais envolvidos eram adolescentes na época dos fatos. Atualmente, Cido mora em outro bairro.
O pai de Dudu, Roberto Gonçalves, dedicou anos à busca por justiça e acompanhou todo o processo que resultou na condenação dos responsáveis pelo crime. Anos depois, morreu em decorrência de um câncer de próstata. A casa onde vivia com o filho, no Jardim das Hortênsias, acabou sendo vendida pela família. A reportagem procurou a Prefeitura de Campo Grande para saber por que a praça segue sem identificação, quais são os motivos da falta de manutenção e se há previsão de instalar a placa com o nome de Dudu e recuperar o espaço. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.
