No prefácio da obra A metamorfose, Na colônia penal e outras histórias, de Franz Kafka (1883-1924), a escritora Anne Rice (1941-2021) fez uma observação sobre a necessidade de seguir as próprias convicções. Para ela, não se deve curvar às tendências ou tentar tornar tudo lógico, mas sim seguir as próprias obsessões. Essa reflexão serve de ponto de partida para uma análise sobre o cenário político atual, onde o oportunismo parece ter mais espaço do que o caráter.
Na política, a falta de propostas originais e de projetos próprios é uma realidade, com raras exceções. Nesse contexto, o chamado “jogo político” acaba por confundir os limites entre autoritarismo e democracia. A figura do eleito, quando revelada, pode fragilizar o Estado como instância coletiva de poder. Casos de humilhação pública não são incomuns nesse ambiente.
O uso do dinheiro público deveria seguir princípios como eficiência, impessoalidade e transparência. Quando um recurso é disponibilizado e não é aplicado, quem perde é a população, principalmente as comunidades que dependem de políticas públicas. A omissão administrativa compromete reformas, a compra de livros e melhorias em escolas, entre outras ações necessárias.
A violência e a criminalidade também encontram espaço onde o Estado deixa de agir. Elas se fortalecem quando os recursos ficam parados, quando as demandas urgentes são ignoradas e quando gestores não cumprem suas obrigações. A lentidão administrativa e a falta de planejamento fazem com que oportunidades de mudança social sejam adiadas ou perdidas, afetando a qualidade dos serviços e ampliando as vulnerabilidades.
Quem ocupa função pública deveria colocar o interesse da comunidade acima de disputas políticas. Quando a escola, a cultura e a assistência social falham, crianças e jovens ficam mais expostos ao aliciamento pela criminalidade. Os versos de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que falam da festa que acabou e da luz que apagou, ilustram a realidade de muitos cidadãos que não tiveram acesso a direitos básicos por causa de recursos que não chegaram ao destino.
A justificativa de que “faltou dinheiro” nem sempre corresponde à realidade. O que falta, em muitos casos, é disposição para agir e capacidade de enxergar além dos interesses partidários. A exigência de comprovação de dolo específico é usada com frequência para evitar a responsabilização, mas o erário pertence à coletividade. A corrupção causa danos, mas a omissão e o comodismo também. A inércia serve àqueles que recorrem à mentira e à incompetência. A poetisa Ada Lima, de Areia Branca (RN), sintetizou essa situação com os versos: “O pânico que me escorre das mãos / não é outro / senão / o de ter que ancorar navios / no vazio”.
Marcos Fabrício Lopes da Silva é pós-doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura do Instituto de Letras da UnB (Universidade de Brasília).
